Testemunhos

Renan, o amigo inesperado

“Era um dia como outro qualquer. Não havia nada de interessante em minha vida- a qual se resumia em estudar matemática e jogar video game-; e eu continuava a viver sem nenhum interesse de sequer fazer as mínimas coisas para a glória de Deus- mesmo estando iludido com uma pseudoconversão e, portanto, convencido de que eu era um crente. Até que meus colegas me convidaram para jogar bola na rua – e eu fui.

“O jogo foi ‘normal’- cheio de brigas e palavrões. Até que repentinamente uma mulher -com uma faca em mãos- e dois ‘caras’ impedem o jogo de continuar- eles tiraram as traves-, a fim de machucarem um rapaz que estava jogando entre nós[1] (ele deveria ter assaltado algum parente daquela mulher…). Eu e meu colega ficamos conversando com um vizinho novato na rua acerca daquela situação inusitada. A conversa continuou até que a polícia chegou, a fim de ouvir depoimentos do que aconteceu- e eu, meu colega e este novo vizinho fomos embora para a casa deste, pois não estávamos interessados em nos envolver com aquela situação.

“Estávamos jogando video game na casa do novato- ele era conhecido como ‘gordo’ (apelido dado pelo pessoal de perto de casa), até que meu colega resolveu ir embora. E por isso, eu também resolvi imediatamente ir embora- tal resolução teve uma razão bem simples: os colegas da minha rua diziam que o gordo ‘havia deixado o uso natural de mulher”[2].

“O tempo passou e comecei a ficar mais amigo daquele vizinho novato, pois tínhamos algo em comum: o vício por video game. E em alguma ocasião ele chegou a dizer que havia sido da igreja batista- mas estava vivendo totalmente alheio ao Evangelho, cheio de imoralidades e futilidades (‘igualzinho’ a mim…). Lembro que, vergonhosamente, a maioria das palavras que saíam de nossas bocas eram imundas- dificilmente conseguíamos ficar muito tempo sem inserir um palavrão em nossas frases…

“Num certo dia, fomos convidados para uma festa numa igreja. A pessoa que nos convidou disse que era uma festa feita por adolescentes e que seria muito legal. Fizemos algumas brincadeiras carnais acerca de tal festa, mas fomos (nós dois e mais dois amigos). Miraculosamente, aquela festa me fez ver em que situação eu estava (embora tenha sido uma visão meramente moral), e fez com que eu tomasse ‘uma atitude de reconciliação com Deus’- o que para mim implicou em parar de chamar palavrão e de fazer outras coisas ilícitas). Depois desse dia eu voltei a frequentar a igreja- acho que de domingo em domingo-, e o ‘gordo’ ia aos cultos de vez em quando… Lembro de uma semana em especial: ele havia ido para um culto de domingo, e disse que ia mudar de vida naquele dia- ele foi à frente fazer a ‘oração do pecador’ para externar tal decisão… E nesta mesma semana, num jogo de bola, ele continuou a chamar palavrões… E lembro que olhei sério para ele, e perguntei: ‘Tu não tinhas mudado de vida?’- e ele me olhou muito irado, quase chorando…”[3]

Bem, ainda tem muita coisa para contar. Mas neste simples post gostaria de pontuar algumas coisas:

– O “gordo” é um dos meus maiores amigos hoje- ele também é conhecido como Renan (membro do GQL). E eu gostaria de louvar a Deus por tudo que Ele fez em nossas vidas. Porque, se o Senhor tivesse de esperar alguma iniciativa nossa para agir em nós, estaríamos completamente perdidos (como outrora estávamos).

– A nossa amizade começou quando ainda éramos do mundo.

– Soberanamente o Renan veio morar em Belém, na mesma rua que eu, num prédio em frente à minha casa (e ele morava em Belo Horizonte).

– Nos envolvemos nas mesmas meninices da congregação que frequentávamos, mas- graças a Deus- fomos resgatados e preservados pelo Senhor[4].

– Mesmo depois de mais de oito anos de amizade, continuamos amigos, crentes e membros do GQL.

E termino dizendo que o Renan não foi um amigo inesperado somente em relação à nossa amizade cristã (por vir de longe e tudo o mais); e sim, principalmente, em relação a Deus. Ou seja, ele é um amigo inesperado porque Deus, sem qualquer um de nós ter alguma sombra de esperança, salvou-o e fez dele um amigo Seu- por meio de Cristo Jesus. E que Deus seja louvado eternamente! Pois Ele é poderoso para tornar pecadores imundos e depravados (até mesmo alguns dos piores), como eu e Renan, Seus amigos- através do sangue purificador de Seu Filho Jesus Cristo.

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”[5]

Victor, o amigo “indesejável”.

“Alguns meses se passaram após eu e Renan termos começado a participar do grupo de adolescentes da igreja. E tudo estava aparentemente muito bom. Lembro que os nossos cultos eram muito legais, engraçados e repletos de fortes emoções- as lágrimas e os brados de louvor eram muito comuns em nosso meio. Lembro que, mesmo estando já há um bom tempo no meio daqueles adolescentes, eu olhava ao meu redor e achava que eu era um dos piores pecadores de lá- porque eu não havia possuído a maioria das experiências deles. Tal fato me faz recordar de uma reunião em particular: eu e Renan estávamos com outras cinco ou seis pessoas- era uma reunião de grupo pequeno-; e em algum momento da reunião quase todas estas pessoas começaram a falar em línguas estranhas- uma das meninas começou a profetizar também. Entretanto, eu não estava sentindo nada de diferente- até pensei que poderia falar em línguas naquele momento, mas nenhuma palavra diferente veio à minha mente. Abri um olho e olhei direto para Renan- ele também estava quieto… Parecia que nós dois éramos os únicos ‘frios’ do grupo.
“E foi em meio a todo este contexto que algo aconteceu num dia que tinha tudo para ser comum- mas não foi. Deixe-me explicar:

“Eu e um de meus primos estávamos num culto de adolescentes como de costume. Estávamos cantando normalmente durante o louvor, até que avistamos um rapaz dançando de modo muito estranho lá pelos primeiros bancos do auditório. E o interessante é que a música eranormal- ela não possuía um ritmo que nos levasse a danças… Mas aquele estranho continuava dançando- ele fazia uns passos engraçados, pareciam com aqueles de discoteca. Lembro que meu primo até o apelidou de ‘macaco’- devido às suas extravagâncias.

“Alguns dias depois eu havia ido comprar alguma coisa para a minha mãe perto de casa; e cruzei o caminho logo com quem: o macaco. Depois até comentei com o meu primo: ‘Érico, nem sabes… O macaco mora perto de casa- até que ele parecia normal’. E isso foi muito importante, pois foi porque soube que aquele novato morava perto de casa, que alguns dias depois o convidei para participar do mesmo grupo menor que eu fazia parte.

“Lembro que Victor- outrora chamado de ‘macaco’ por mim, meu primo e Renan- foi pela primeira vez para o grupo menor numa reunião em que houve uma série de problemas entre algumas meninas do grupo e o líder. Isto foi tão sério que o líder até foi embora da casa onde era a reunião. E eu havia ficado sem graça pelo Victor e por uma menina que também estava lá pela primeira vez… Mas pela soberania de Deus, começava aí a nossa amizade…” [7]

Enquanto escrevia este post dei algumas risadas- algumas imagens de quando vi o Victor dançando naquele culto vieram à minha mente. Mas também fiquei muito grato por poder relembrar pontos importantes da minha vida e da de meus amigos, e glorificar a Deus pela Sua infinita graça. Pois bem, ainda há muito para ser dito. Mas agora gostaria de pontuar algumas coisas:

– O “macaco” também é um dos meus maiores amigos hoje. Eu o considero como um dos maiores canais de bênção na minha adolescência (agora ele está mais fraco rsrs… Brincadeira, ele ainda continua sendo uma bênção para mim sim).

– Deus usou o Victor para me mostrar que a minha teologia na época não passava de hipocrisia… Ele apareceu para “acabar com a minha festa”- eu era visto como um dos maiores exemplos de adolescente cristão (pelo menos por meus amigos, é claro…). Sou eternamente grato a Deus por isso- até porque se Deus usou uma jumenta, por que Ele não poderia usar um macaco também?

– Classifiquei Victor como o “amigo indesejado” pelo seguinte motivo: nenhuma pessoa tem prazer em ter o seu pecado confrontado- ainda mais quando tal pessoa tem uma boa reputação perante os amigos. Mas era esse confronto de pecado que Victor fazia constantemente[8]. Então, ele era “indesejado” não no sentido de como se eu lamentasse por ser seu amigo- jamais; e sim no sentindo em que ninguém o queria por perto.[9]

– Aprendi muito com o “fariseu”[10] do Victor, mas também tivemos que amadurecer muito durante estes anos. Mas graças a Deus por tudo, porque Ele sempre Se mostrou fiel em nos repreender e corrigir.

-Mesmo depois de mais de sete anos de amizade, continuamos amigos, crentes e membros do GQL.

“Melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo amigo, mas os beijos do inimigo são enganosos.” (Provérbios 27.5,6)

[1] Embora este garoto estivesse entre o pessoal que estava jogando, ele não era do meu ciclo de amizades.
[2] Estou fazendo uma alusão a Rm 1.27 . Mas Renan nunca foi homossexual- eram os meus colegas que o chamavam de homossexual (só porque ele era novato na rua).
[3] O que relatei aqui não conta o dia da nossa conversão- genuinamente-, e sim alguns momentos que mostram a soberania de Deus agindo em todas as coisas.
[4]Isto deverá ser aprofundado nas próximas postagens.
[5] Rm 5.6-8.
[6] Que fique bem claro que usei o termo “gordo” porque estou falando de um amigo bem próximo- e sei que posso tomar essa liberdade em relação a ele. Mas nada de Bullyiing, por favor…

[7] Peço que os irmãos tenham paciência para entenderem esta história melhor ao longo de cada postagem.
[8] Claro que nem sempre Victor era irrepreensível. Ainda havia muita imaturidade em algumas coisas. Mas em geral, ele “acabava com a festa de todo mundo”.
[9] O interessante é que depois de um tempo, não somente Victor era indesejado pela maioria; e sim os seus amigos também.
[10] “Fariseu” é muito usado entre nós. Dependendo do contexto, pode ser desde “hipócrita” a “amigo” . Nesse caso, é fariseu de “amigo” mesmo.

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